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Educação

A aula na perspectiva dialética

30 de dezembro de 2011

Os estudiosos sabem que existem duas concepções de fazer ou produzir ciência, duas visões de mundo, duas visões de homem e duas visões de sociedade e, por conseguinte, duas concepções epistemológicas: a METAFÍSICA e a DIALÉTICA. A metafísica é uma concepção acrítica ou crítica produtivista porque está comprometida com a conservação e a manutenção do status quo. Não adota a crítica como postura e categoria de análise, o que possibilita o fortalecimento e a manutenção, por exemplo, da estrutura da sociedade burguesa, uma sociedade divida em classes sociais por força do capital. Nesse sistema epistemológico, o questionamento e as reivindicações são tidos como anomalias, badernas ou comportamento atrasado.

A perspectiva dialética nos possibilita entender a sociedade burguesa como um campo de contradições sociais. Auxilia numa análise lúcida de que a GLOBALIZAÇÃO é uma invenção dos organismos internacionais de cultura e de financiamento, a serviço do G-7, para resolver a crise aguda do sistema do capital. E o que é a crise do sistema do capital? Na perspectiva dialética é a não realização plena da mercadoria, ou seja, os países do G-7 não conseguem vender o que produzem. Em consequência, os Estados nacionais, considerados em processo de desenvolvimento são levados a comprar seus computadores, outros aparelhos eletrônicos etc., resolvendo a situação do desemprego no centro do sistema e agravando, cada vez mais, a situação na periferia do mesmo.

No âmbito do exercício do magistério, a perspectiva dialética nos permite afirmar que o professor agora é e não é mais o senhor do seu trabalho. É, ao mesmo tempo, um manipulador mais ou menos eficiente de instrumentos didático-pedagógicos construídos, muitas das vezes, em países mais desenvolvidos tecnologicamente que o Brasil, e, também, um simples usuário que não faz questão de saber os princípios científicos envolvidos na concepção e fabricação dos instrumentos que manipula. O PLANEJAMENTO das aulas que serão ministradas durante cada bimestre do ano letivo se resume a uma listagem de conteúdos copiados dos sumários dos livros didáticos e que, muitas das vezes, o professor resume a relação com o cotidiano do discente a passar nos vestibulares.

E como é a aula na perspectiva dialética? Nessa concepção, o docente e o discente se constituem sujeitos compromissados com o processo pedagógico mediado pelas coisas constitutivas do mundo e o conhecimento historicamente acumulado como algo condicionado e que condiciona os indivíduos desse processo. Nega à neutralidade das Ciências Humanas e Sociais como concebida pelos adeptos do POSITIVISMO. O método, a metodologia e a seleção de grupos de conceitos científicos oportunizam ao discente não só o entendimento da realidade excludente em que sobrevive, mas também a acomodar aspectos cognoscitivos que o levarão a consciência de sua posição na sociedade burguesa, possibilitando recuperar a sua memória histórica.

Na perspectiva dialética o discente submete a crítica o papel da sociedade na sua formação como indivíduo, além de conteúdos que coloquem questões das suas experiências vividas contraditoriamente, que se manifestam nas dimensões do imbricado mosaico que constitui o proletariado contemporâneo. É preciso que se inicie esse discente nos procedimentos da produção do conhecimento incentivando um relacionamento ativo e crítico com o saber historicamente acumulado, e negando esse conhecimento como verdade absoluta e acabada. Por outro lado, conseguir que o discente produza conhecimento, ou seja, faça uma reflexão sobre um objeto de estudo, pressupõe um relacionamento entre os sujeitos do processo diferente do positivista.

Nesta situação, o professor dá a palavra para o discente que discute com base nos textos lidos, nas observações, nas entrevistas, na reflexão de textos coletivos produzidos pela turma e na experiência de vida. O discente é ativo, não sendo o professor que fala e que sabe; há a participação e o esforço do mesmo para aprofundar e incorporar conhecimentos novos, permitindo o desenvolvimento do real e da sua própria situação histórica. Dessa maneira, a aula é desenvolvida por intermédio de um "diálogo entre o professor e os discentes para estabelecer uma relação de intercâmbio do conhecimento e vivências. O diálogo, entretanto, deve ser considerado não apenas como uma conversação, mas sim como uma busca recíproca do saber" (PAULO FREIRE).

Na concepção positivista, a aula enfatiza a ordem, a integração, o consenso, excluindo as tensões e manifestação da vida social que não concorram para a ordem e funcionalidade da sociedade. Concebe o conhecimento como reflexo do objeto ou dos fatos sociais. Utiliza uma metodologia baseada, unicamente, na aula expositiva onde os alunos são ouvintes passíveis que deverão reproduzir o que foi transmitido. Os conteúdos trabalhados na perspectiva positivista da Educação Bancária se referem, principalmente, a conciliação, ao consenso, a cordialidade e não violência. Os temas que deixam aflorar a contradição, conflito, as tensões e violências tendem a serem minimizadas ou eliminadas das matrizes curriculares propostas para a Educação Básica.

O professor Pedro Demo afirma que esse tipo de aula "apenas repassa conhecimento, não sai do ponto de partida, e, na prática, atrapalha o discente porque o coloca numa situação de objeto de ensino e instrução". Continuando, o referido pensador afirma que esse tipo de aula é uma "a aula copiada que não constrói nada de distintivo, e, por isso, não educa mais do que a fofoca, a conversa fiada dos vizinhos, o bate papo numa festa animada etc.". Já o educador Paulo Freire afirma que esse tipo de aula é uma espécie de monólogo oriundo de uma prática que se constitui na pedagogia do blá blá blá. Ou seja, o fazer pedagógico metafísico é algo que não contribui em nada para o esclarecimento das coisas do passado que não devem se repetir no presente.

Em síntese, podemos inferir que a aula não pode ser um expediente rotineiro. Ela deve ser usada para denunciar a feiúra que se faz tão presente no contemporâneo. Não se aprende muito só escutando conceitos extremamente relativos (por exemplos: riqueza, pobreza etc.); aprende-se também pesquisando, estudando e submetendo o resultado das pesquisas ao crivo da crítica qualificada. É por isso que acreditamos que a pesquisa deve começar na Educação Infantil e não apenas quando o discente ingressa nos cursos de pós-graduação. O professor também precisa ser mais qualificado para que possa pesquisar e trabalhar com seus próprios textos e não somente com textos produzidos por outros pensadores. O docente tem que ter café novo para beber e servir.

Elizeu Vieira Moreira é Professor da SEDUC e do PARFOR/FACED/UFAM.


Fonte: http://www.artigonal.com/

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